Da Gaveta à Luz!...
Atualizado: 10 de set.
Quando uma criação encontra o seu lugar
Há coisas que começam sem sabermos muito bem onde nos vão levar.
Um traço. Uma cor. Uma imagem. Uma ideia que aparece de repente e pede para ganhar forma. Foi assim que, há alguns anos, comecei a desenhar.

Não houve propriamente um plano. Nem uma decisão de me tornar ilustradora. Começou de uma forma muito mais simples: uma vontade de experimentar, de criar, de dar vida e cor a formas, contornos, imagens e histórias que, de alguma maneira, já dançavam dentro de mim.
No início, era apenas um passatempo. Desenhava, pintava, experimentava materiais e suportes diferentes. Criava pequenas peças, imagens, objetos e guardava-os....
Nas gavetas!
E talvez essa seja uma das imagens que melhor representa uma parte importante deste percurso: tantas criações ficaram guardadas durante anos, não porque não fossem importantes, mas porque ainda não tinha encontrado a forma certa de lhes dar um lugar.
CRIAR PARA ME EXPRESSAR
Com o tempo, fui percebendo que criar não era apenas fazer qualquer coisa bonita.
Era uma forma de estar.
De parar.
De observar.
De experimentar.
De me escutar.
Havia momentos em que desenhar era simplesmente uma forma de brincar com as cores e as formas. Noutros, era uma maneira de dar expressão a coisas que ainda não tinham palavras.
E talvez seja essa uma das coisas fascinantes da criação: nem sempre começamos por saber exatamente o que queremos dizer. Às vezes, começamos simplesmente por criar. E é no próprio processo que alguma coisa se revela.
Foi também através da Arte que reencontrei uma parte de mim que talvez tivesse ficado demasiado tempo esquecida. Uma parte mais espontânea. Mais intuitiva. Mais disponível para experimentar sem precisar de saber antecipadamente onde iria chegar.
A Arte tornou-se, assim, uma outra linguagem. Uma linguagem diferente da palavra, mas não menos comunicativa.
A NATUREZA COMO ATELIER
Muitas destas criações nasceram também da minha relação com a Natureza. Durante muito tempo, quando pensava no meu “atelier”, não imaginava necessariamente uma sala, uma mesa ou um espaço cheio de materiais. O meu atelier preferido sempre foi a Natureza.
É aí que encontro formas, cores, movimentos, contrastes, ritmos e combinações que continuam a surpreender-me. É aí que observo. É aí que me inspiro. É aí que tantas vezes consigo simplesmente estar.

A Natureza lembra-me que criar também é um processo vivo. Que há tempo para germinar, tempo para crescer, tempo para florescer. E que nem tudo precisa de acontecer imediatamente.
Talvez por isso muitas das imagens que fui criando ao longo dos anos tenham encontrado inspiração em flores, árvores, animais, elementos da Natureza, ciclos e transformações.
Não porque exista uma única mensagem escondida em cada imagem. Mas porque essas formas fazem parte do meu próprio modo de olhar para a Vida.
QUANDO UMA IMAGEM DEIXA DE SER APENAS MINHA
Durante algum tempo, estas criações foram sobretudo minhas... e das minhas gavetas!... Faziam parte do meu processo. Mas, a certa altura, começou a surgir uma pergunta:
E se aquilo que me ajudou a expressar também pudesse inspirar outra pessoa?
Foi aí que nasceu a vontade de partilhar.
Em 2021, criei o projeto From the HeARTS, precisamente com essa intenção: encontrar um espaço onde pudesse mostrar este outro lado da minha expressão criativa. Mas o projeto nunca chegou verdadeiramente a sair da gaveta e a ganhar vida. E talvez hoje perceba melhor porquê.
Naquele momento, ainda parecia necessário separar todas as vertentes que faziam parte de mim: de um lado, a Psicologia e a Educação; do outro, a Arte, como se essa fosse algo secundário que eu não podia "dar-me ao luxo" de privilegiar.
.
Com o tempo, fui percebendo que essa separação já não fazia sentido e que insistir em fazê-lo era abafar partes de mim que talvez, na verdade, sejam até as mais genuínas e espontâneas!
E percebi que todas essas "vertentes minhas" que durante muito tempo vi como fragmentos desconexos e desarticulados, afinal, nunca foram mundos completamente diferentes.
A criatividade sempre esteve presente na minha forma de pensar e de trabalhar. A Natureza atravessa muitos dos meus interesses. A expressão, a descoberta, o desenvolvimento e a aprendizagem cruzam-se continuamente. E foi assim que estas criações encontraram finalmente outro lugar: o D’AR-TE À LUZ.
DAR FORMA - DAR À LUZ - PARTILHAR
Hoje consigo olhar para aquelas gavetas de outra maneira. Não eram apenas lugares onde as coisas ficavam esquecidas. Eram, talvez, espaços de gestação. Algumas criações precisavam simplesmente de tempo.
Tempo para eu própria mudar. Tempo para descobrir novas formas de olhar. Tempo para perceber que não precisava de lhes atribuir uma explicação definitiva para que pudessem ser partilhadas.
Porque uma imagem pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Pode despertar uma memória. Uma pergunta. Uma emoção. Uma associação. Ou simplesmente um sorriso. E está tudo bem. Hoje interessa-me muito mais perguntar: “O que é que esta imagem te diz?” do que dizer: “Esta imagem significa isto.”
Talvez porque também aqui exista um princípio que atravessa todo o D’AR-TE À LUZ:
não entregar respostas prontas, mas criar espaço para que cada pessoa possa descobrir por si.
CRIAR É TAMBÉM PARTILHAR
Há uma frase que escrevi há alguns anos e que continua a fazer sentido para mim: “Se criar é comunicar, precisava de ser também partilhar.”
Hoje acrescentaria outra coisa: partilhar também é permitir que uma criação continue a viver.
Quando uma imagem sai da gaveta e encontra outros olhos, deixa de pertencer apenas ao momento em que foi criada. Pode ganhar novas interpretações. Pode inspirar uma conversa.
Pode tornar-se um postal, uma carta, um recurso, uma atividade, uma história, um objeto ou simplesmente uma imagem que alguém escolhe levar consigo.
E talvez seja essa uma das razões pelas quais sinto agora que chegou o momento de deixar algumas destas criações sair, finalmente, das gavetas. Não para lhes atribuir uma função que não precisam de ter. Não para explicar aquilo que devem significar. Mas simplesmente para lhes dar espaço.
UM UNIVERSO QUE CONTINUA A CRESCER
A Galeria do D’AR-TE À LUZ nasce desse lugar. Um lugar onde diferentes formas de criação podem encontrar-se.
O livro. As personagens. O baralho. As ilustrações. E, amanhã, talvez outras ideias, outros recursos e outras formas de expressão. Algumas já existem. Outras ainda estão apenas a germinar.
E talvez seja precisamente essa a beleza de um projeto vivo: não sabermos exatamente tudo aquilo que poderá vir a nascer.
Por agora, quero apenas abrir as gavetas. Deixar entrar a luz. E permitir que estas criações encontrem, finalmente, o seu caminho.
Talvez algumas te digam alguma coisa. Talvez outras não. Talvez uma imagem te faça parar durante alguns segundos. Talvez outra te desperte uma pergunta que não esperavas.
Não precisas de saber porquê.
Olha. Sente Imagina. Descobre.
O significado pode ser só teu.
E talvez, no fundo, seja isso que sempre procurei através da criação: dar forma ao que vive dentro de mim e, ao partilhá-lo, abrir espaço para que algo possa também nascer em quem olha.

E é dessa forma que hoje, finalmente, quase 6 anos depois do primeiro projeto que nunca saiu da gaveta, me permito finalmente trazer esta Galeria à LUZ!....
Sofia Silva
D'AR-TE À LUZ ©
"Durante algum tempo, estas criações foram sobretudo minhas... e das minhas gavetas!...Mas, a certa altura, começou a surgir uma pergunta: E se aquilo que me ajudou a expressar também pudesse inspirar outra pessoa? Foi aí que nasceu a vontade de partilhar.."






Comentários