top of page

Caminhando com as Sombras

Há dias em que caminho apenas para respirar. Outros, caminho para pensar.

E há dias em que é a própria Natureza que, sem dizer uma única palavra, acaba por responder a perguntas que eu nem sabia que levava comigo.


Foi numa dessas caminhadas que voltei a reparar na minha sombra. Ela seguia-me desde o primeiro passo. Ora à minha frente, ora atrás de mim, ora ao meu lado. Sempre presente.

Sorri.


Porque percebi que, durante muitos anos da minha vida, fiz exatamente o mesmo com as minhas sombras interiores. Passei demasiado tempo a tentar livrar-me delas. Como se um dia fosse possível caminhar sem sombra.



Hoje vejo-as de outra forma. Já não lhes chamo inimigas. Nem defeitos. Nem partes de mim que preciso esconder. Vejo-as como lugares onde ainda existe algo que pede compreensão.

Porque, quase sempre, aquilo a que chamamos sombra nasceu, um dia, como uma forma de proteção.


Um medo.

Uma insegurança.

Uma necessidade de ser aceite.

Uma ferida.

Uma crença construída quando ainda não sabíamos olhar para nós com amor.


Talvez seja por isso que lutar contra as sombras raramente resulta. Quanto mais lhes resistimos... mais parecem crescer.


Durante muito tempo acreditei que o autoconhecimento consistia em encontrar a melhor versão de mim. Hoje já não penso assim. Acredito que o autoconhecimento começa quando deixamos de fugir de quem somos. Quando temos coragem de olhar para aquilo que preferíamos não ver.


Sem julgamento.

Sem culpa.

Sem pressa de mudar.

Apenas com presença.


Curiosamente, quanto mais fui acolhendo essas partes de mim... menos elas precisaram de gritar. Porque, talvez como acontece com as crianças, aquilo que verdadeiramente pede atenção não desaparece por ser ignorado. Transforma-se quando é escutado.


Hoje continuo a ter sombras. Continuo a sentir medo. Continuo a descobrir crenças antigas.

Continuo a reconhecer padrões que, às vezes, voltam a aparecer. A diferença é que já não caminho contra eles. Caminho com eles. E isso muda tudo. Porque já não gasto energia a fingir que não existem. Posso usá-la para continuar a caminhar.


Talvez seja esse um dos maiores presentes da maturidade. Perceber que a luz não nasce quando eliminamos todas as sombras. Nasce quando deixamos finalmente de lhes fugir.


Na Natureza, uma árvore não deixa de crescer porque existe sombra à sua volta.

Pelo contrário. Aprende a encontrar a luz mesmo assim. Talvez nós também possamos fazer o mesmo.


Sofia Silva

D'AR-TE À LUZ ©


"Durante muitos anos pensei que crescer era tornar-me uma pessoa melhor. Hoje acredito que crescer foi aprender a reconhecer tudo aquilo que nunca deixou de fazer parte de mim... e, ainda assim, escolher caminhar com mais consciência."


Este artigo nasceu a partir de um texto originalmente escrito em 2021. Ao revisitá-lo hoje, senti vontade de o reescrever e simplificar, não porque a sua essência tenha mudado, mas porque também eu continuei a caminhar. Talvez seja isso que acontece com tudo o que é verdadeiramente vivo: permanece o mesmo... enquanto encontra novas formas de se expressar.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page